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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Memória (Carlos Drummond de Andrade)



Como cada 31 de outubro, cá estamos com uma poesia de Carlos Drummond de Andrade, como muitos amantes da poesia no mundo da língua portuguesa. Hoje é o Dia D, de Drummond, que foi proposta do Instituto Moreira Salles.

E também lemos Drummond no resto do ano, claro.


MEMÓRIA

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade



sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O humor é uma arte (Luís Valente Rosa)



O humor é uma arte

Vi no outro dia, na televisão, uma reportagem sobre o humor, que incluía um conjunto de entrevistas a alguns grandes humoristas cá do burgo. E fiquei com esta dúvida: será que existem regras estruturantes que podem definir o conceito de humor e identificar o grande humor?

Penso que o primeiro contacto que tive com o verdadeiro humor, neste caso britânico, foi quando vi a Mary Poppins. Retive sobretudo um curto diálogo do filme em que o limpa-chaminés diz: "conheci um homem, com uma perna de pau, de nome Smith." Pergunta o miúdo: "como se chamava a outra perna?"

O meu segundo contacto relevante com o grande humor aconteceu com os Monty Python. Deles, vou aqui apenas recordar uma cena: no início do filme sobre o "Graal", vêem-se cavaleiros ao longe na névoa e ouve-se o galope dos cavalos; assim que se aproximam, percebemos que vinham sem cavalos, a saltitar imitando o movimento sobre a sela e a bater com duas metades de coco nas mãos para imitar as patadas inexistentes.

O terceiro contacto que é imperioso referir dá-se com o Herman, o rosto do humor mais genial que Portugal alguma vez conheceu. É impossível recordar todos os grandes momentos de diversão que lhe devo, mas realço - nem sei bem porquê - um número em que fazia de cirurgião maluco, a tirar órgãos da barriga do doente e a atirá-los ao ar (aos quais chamava "excrecências lapidoláticas), enquanto cantava uma canção totalmente disparatada em espanhol: "hoje voy a passar por el camino berde".

Pergunto: que há de comum nestes três grandes exemplos (mesmo que a memória me atraiçoe um pouco)? Qual é, para mim, a lógica interna que estrutura estes momentos de génio e que pode explicar a essência do grande humor?

Depois de alguma reflexão, cheguei a uma conclusão surpreendente: o que caracteriza o supremo do humor é o mesmo que caracteriza o supremo da arte.

Em primeiro lugar, o desenraizamento que nos projecta na irrealidade. Por outras palavras, a recusa de uma qualquer concretização. Como se de uma ficção se tratasse. Tem, por isso, uma dimensão abstracta, não redutível a um indivíduo, a uma situação, a um tempo ou a um espaço específicos. Como a grande arte, o grande humor deve ser universal e intemporal.

Em segundo lugar, também nos projecta, como a arte, num "mundo outro", não compreensível através das regras do nosso mundo vivencial. Muitas vezes, dizemos que se trata de uma ficção "maluca" - o "maluco" é, por excelência, aquele que não vive em função das regras adoptadas pelos outros. É daqui que sai, na minha opinião, a ideia do absurdo, do "nonsense", característica fundamental do grande humor (mesmo não britânico).

Para dar um exemplo, é por fugir a estas regras, e contrariar estas duas características fundamentais, que o humor que se faz em relação a uma pessoa em concreto (como acontece na piada política) não tem normalmente graça nenhuma.

O que provoca o riso profundo é, então, o contraste dilacerante entre o nosso pequeno e comprimido mundo real e a sua transfiguração num outro mundo, paralelo e semelhante, mas que nos surge estranho, por via de uma desmesura de irrealidade e de liberdade nas regras de funcionamento. Tal como se existisse uma possibilidade de vida alternativa numa outra dimensão totalmente livre, apenas limitada pela nossa imaginação.

Termino lamentando o facto de o humor não aparecer na lista das artes. Começaram por ser 6, depois veio o cinema - que tantas vezes não é uma arte mas um "voyeurismo" de vidas alheias que contraria as duas regras atrás enunciadas - e hoje já existe referência em relação a 11 ou 12 artes. Até a culinária já aparece mencionada. É altamente injusto. Não quero terminar mesmo sem fazer uma referência ao Ricardo Araújo Pereira e, como exemplo, ao enorme humor desse seu "a minha vida dava um filme indiano".

Luís Valente Rosa

Após 20 anos de ensino universitário, especializado em Metodologia para as Ciências Sociais e Estatística, e 20 anos de estudos de mercado, sondagens e previsões eleitorais, dedica-se hoje à escrita e ao projecto Social Data Lab, laboratório de investigação social.


Publicado na revista Visão (31.08.2015)


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

O sal da língua (Eugénio de Andrade)

 Eugénio de Andrade, por José Viana




O SAL DA LÍNGUA

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade




quinta-feira, 20 de outubro de 2016

A postos para novos impostos… (Pedro Rolo Duarte)



A postos para novos impostos…


Há dezenas de anos que sucessivos Governos “inventam” impostos indirectos, que fazem de conta que não são connosco - mas no fim pagamos, que remédio, e a vida segue. A “Geringonça”, que já fez um ano e provou que afinal podia funcionar, mesmo que em modo “tem-te não caias”, anda agora às voltas com o Orçamento, e o primeiro-ministro António Costa preveniu a populaça, via jornal Público, que não é improvável que alguns impostos indirectos venham a ser criados para cumprir as metas a que a Europa nos obriga.

Estava a ler a coisa - nomeadamente a ideia do imposto sobre o açúcar, com o pressuposto de que se trata de um bem para a saúde pública… - e imaginei uma start-up, tive um laivo de empreendedorismo: criar uma empresa para a invenção de novos impostos!

Tratava-se de um negócio supra-partidário, que funcionaria como as empresas de comunicação. Assim chegasse cliente, assim faríamos fato à medida. Disponível para inventar, recriar, fazer renascer ou apenas implementar toda a espécie de novos impostos indirectos. O cliente determinaria se seriam mais ou menos indolores, discretos, escondidos, fingidos ou descarados. Estaríamos aqui para servir!

Num ápice, inventei cinco novas taxas, cobranças e impostos que, com jeitinho, ainda vão a tempo de servir a “Geringonça” (gratuitamente, nesta fase de “lançamento” da empresa que estou a pensar abrir). A saber…

Um. Imposto sobre o animal domestico - Sendo certo que a existência de um animal em casa pressupõe determinados custos para a comunidade, seja o cocó que alguns se esquecem de apanhar ou o latido nocturno que incomoda, não falando nos pêlos que pairam pelo ar e podem fazer crescer as doenças respiratórias (logo, os custos do Serviço Nacional de Saúde), uma pequena taxa anual por cada animal de companhia não custa nada e serve todos…

Dois. Taxa pela utilização dos passeios para correr - A moda das corridas parece instalada. Nada contra. Mas talvez o Governo pudesse obrigar as empresas que vendem ténis a cobrar uma taxa (10%?) sobre o preço de venda das sapatilhas, que reverteria para a manutenção dos passeios e cobria alguns acidentes que a correria possa provocar nos atletas.

Três. Taxa sobre o gelo na restauração - A transformação da água em gelo para bebidas, nos bares e restaurantes, reflecte um consumo de energia que não deve passar em claro. Cobrar meia-dúzia de cêntimos pelo gelo consumido parece-me razoável.

Quatro. Imposto sobre o ruído nos jogos de futebol (em caso de golo) - Um pequeno estipendio pelo ruído provocado pelos adeptos, sempre que há um golo num jogo das duas ligas principais. Pode ser imputado ao clube, que por sua vez decide se o faz recair sobre os sócios…

Cinco. Taxa sobre a permanência em esplanada - É de elementar justiça que o cliente de uma esplanada pague sobre o ar que respira, a vista de que usufrui, e o ambiente que lhe é concedido. Independentemente de se tratar de uma rua de Chelas ou de um bar à beira Tejo, seria uma taxa justa.

Em escassos minutos, cinco impostos indirectos. Digam-me lá se não é um negócio útil e com futuro? E ainda dizem que Portugal é um país com falta de oportunidades…

Pedro Rolo Duarte
 
(Tempos Modernos, blogue de Pedro Rolo Duarte)


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O meu preço (José Craveirinha )

Crianças moçambicanas (Blogue Beijo de mulata)



O MEU PREÇO

Eu cidadão anónimo
do País que mais amo sem dizer o nome
se é para me dar de corpo e alma
dou-me todo como daquela vez em Chaimite.
Dou-me em troca de mil crianças felizes
nenhum velho a pedir esmola
uma escola em cada bairro
salário justo nas oficinas
filas de camiões carregados de hortaliças
um exército de operários todos com serviço
um tesouro de belas raparigas maravilhando as praias
e ao vento da minha terra uma grande bandeira sem quinas.
Se é para me dar
dou-me de graça por conta disso.
Mas se é para me vender
vendo-me mas vendo-me muito caro.
Ao preço incondicional
de quanto me pode custar este poema.

José Craveirinha



(Mais poemas de Craveirinha no blogue À sombra dos palmares)

José Craveirinha, Lourenço Marques (actual Maputo), 1922 - 2003.

Pode considerar-se José Craveirinha como o poeta nacional moçambicano, no sentido em que Camões o é para Portugal. De certo modo, com a sua poesia frequentemente extensa, narrática, glosando temáticas da dominação colonial, da identidade nacional e de lirismo amoroso ou irónico, Craveirinha acaba por forjar textos que têm marcas épicas, que funcionam como relatos concentrados ou alusões à gesta do povo de Moçambique. (Pires Laranjeira, Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, vol. 64, Lisboa, Universidade Aberta, 1995, pp. 278) , in Lusofonia.



segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Pecados da Lusofonia (Dulce Maria Cardoso)




PECADOS DA LUSOFONIA

Conta a minha mãe que em pequena aprendi quimbundo em vez de português. Conta ainda a minha mãe que eu não só falava quimbundo como gostava de comer funje e de dançar com as lavadeiras dos vizinhos. Os meus pais nada sabiam de quimbundo portanto não sei até que ponto eu me expressei em quimbundo, possivelmente repeti algumas palavras que ouvi aos filhos das lavadeiras com quem brincava e pouco mais. Lembro-me no entanto de me aperceber mais tarde de que havia um conflito entre a nossa língua e as línguas deles.

As línguas deles nunca eram usadas oficialmente. Nas escolas, nos hospitais ou nas repartições públicas só se falava português e a maioria dos colonos ridicularizava os negros por não serem capazes de pronunciar algumas palavras portuguesas e por não usarem devidamente as regras gramaticais. Para a maioria dos colonos essa incapacidade era sinónimo de pouca capacidade intelectual e prova irrefutável de que eles não saberiam governar-se sozinhos. Chamavam por isso matumbos aos negros. Os brancos usavam muitas vezes palavras da língua deles para os insultarem. O uso da língua deles limitava-se praticamente a isso. Porque só o que é familiar pode ferir profundamente mais.

O facto de a maioria dos brancos não saber das línguas deles mais do que meia dúzia de insultos não era visto como sinal de pouca capacidade intelectual, era apenas sinal de que a língua deles não tinha interesse e ainda que os brancos desconfiassem que eles conspiravam na língua deles nem assim perdiam tempo com isso. Os negros e as línguas deles não eram uma ameaça perante o poder que os brancos e, consequentemente a língua dos brancos, tinham.

Segundo a wikipédia, a Lusofonia é o conjunto de algumas identidades culturais existentes em países, regiões, estados ou cidades falantes da língua portuguesa, como Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste, Goa, Damão e Diu, e também por diversas pessoas e comunidades em todo o mundo. Alguns teóricos que a estudam advogam que temos de entender a lusofonia no presente, isto é, sem o peso dos factos históricos que lhe deram origem.

Creio não ser possível pensar na lusofonia sem ter em conta os cinco séculos de Império e Portugal como colonizador. A lusofonia é fruto do Império. Desfizemo-nos do Império como se fosse uma camisa velha, no dizer do Professor Eduardo Lourenço. Penso que o mais correcto será dizer que quisemos desfazer-nos do Império como se fosse uma camisa velha mas que nunca o conseguiremos fazer porque o Império nos moldou enquanto povo, no passado, tal como a falta dele nos vai moldando o presente. Talvez por isso seja difícil fazerem-se ouvir vozes lúcidas sobre o Império. Renegamo-lo ou exaltamo-lo consoante as nossas perspectivas de vida e credo político, mas raramente conseguimos abordar com profundidade o que foi efectivamente o Império e o que dele restou.

Dizia que cresci testemunhando que uma língua pode ser uma arma muito poderosa e verifiquei que a língua dos mais fortes ganha. Por ser uma criança, não me pude aperceber de que a língua portuguesa em Luanda expressava o domínio de uns e a submissão de outros, e quando muitos anos mais tarde comecei a pensar no que tinha testemunhado era já ponto assente que o Império Português nunca deveria ter existido e que uma das grandes conquistas da Revolução de Abril tinha sido acabar com esse crime da Pátria.

Poucas vezes terei ouvido que a marca mais visível, ou melhor, mais audível desse crime é exactamente a língua. A língua portuguesa é a marca mais permanente da colonização que Portugal empreendeu. Aquando da descolonização, para os novos estados independentes era demasiado tarde ou demasiado cedo para escolherem outra língua que não o português como sua língua oficial. Lembro-me de algumas canções que os negros cantavam e que tinham palavras portuguesas pelo meio. Um dia perguntei a razão e explicaram-me que não havia uma palavra em quimbundo para o que queriam dizer. Uma dessas palavras era «identidade». Outra dessas palavras era «documento».

Dulce Maria Cardoso

Texto escrito pela escritora portuguesa Dulce Maria Cardoso, que foi uma das convidadas dos Encontros da Lusofonia, na Fundação Calouste Gulbenkian no ano passado, em Paris. Este é o texto que ela leu nesses Encontros.

(Fonte: Público, 21-10-2015)



segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Clarice Lispector no Instituto Moreira Salles




Acompanhamos o link sobre Clarice Lispector na página do Instituto Moreira Salles com uma breves palavras do primeiro romance dela, Perto do Coração Selvagem:


E sempre no pingo de tempo que vinha nada acontecia se ela continuava a esperar o que ia acontecer.



Clarice Lispector no IMS