POESÍA a rodos Textos em português (literários e não literarios) Vídeos com histórias

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Fim (Mário de Sá-Carneiro)



Mário de Sá-Carneiro, amigo do peito de Fernando Pessoa, morreu em Paris em 26 de abril de 1916.


FIM

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Mário de Sá-Carneiro


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Morre jovem o que os Deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga. (...)

Génio na arte, não teve Sá-Carneiro nem alegria nem felicidade nesta vida. Só a arte, que fez ou que sentiu, por instantes o turbou de consolação. São assim os que os Deuses fadaram seus. Nem o amor os quer, nem a esperança os busca, nem a glória os acolhe. Ou morrem jovens, ou a si mesmos sobrevivem, íncolas da incompreensão ou da indiferença. Este morreu jovem, porque os Deuses lhe tiveram muito amor.

Mas para Sá-Carneiro, génio não só da arte mas da inovação nela, juntou-se, à indiferença que circunda os génios, o escárnio que persegue os inovadores, profetas, como Cassandra, de verdades que todos têm por mentira. In qua scribebat, barbara terrafuit. Mas, se a terra fora outra, não variara o destino. Hoje, mais que em outro tempo, qualquer privilégio é um castigo. Hoje, mais que nunca, se sofre a própria grandeza. As plebes de todas as classes cobrem, como uma maré morta, as ruínas do que foi grande e os alicerces desertos do que poderia sê-lo. O circo, mais que em Roma que morria, é hoje a vida de todos; porém alargou os seus muros até os confins da terra. A glória é dos gladiadores e dos mimos. Decide supremo qualquer soldado bárbaro, que a guarda impôs imperador. Nada nasce de grande que não nasça maldito, nem cresce de nobre que se não definhe, crescendo. Se assim é, assim seja! Os Deuses o quiseram assim. 

Fernando Pessoa, Athena, nº 2. Lisboa: Novembro, 1924. (Texto completo)



segunda-feira, 25 de abril de 2016

Soneto presente (José Carlos Ary dos Santos)




Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.

Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.

Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.

Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu.

José Carlos Ary dos Santos




sábado, 23 de abril de 2016

Os livros (Manuel António Pina)




OS LIVROS

É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo ‘eu’ entre nós e nós?

Manuel António Pina



Todas as Palavras |Poesia de 1974 a 2011| (Assírio & Alvim, 2015)


quinta-feira, 21 de abril de 2016

Das vantagens de ser bobo (Clarice Lispector)



 DAS VANTAGENS DE SER BOBO

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir, tocar no mundo.
O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo, estou pensando”.
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas.
O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver.
O bobo parece nunca ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era que o aparelho estava tão estragado que o concerto seria caríssimo: mais vale comprar outro.
Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e, portanto estar tranqüilo.
Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros.
Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu.
Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.
Os espertos ganham dos outros. Em compensação, os bobos ganham a vida.
Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás, não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.
É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca.
É que só o bobo é capaz de excesso de amor.
E só o amor faz o bobo.

Clarice Lispector
12 de setembro de 1970.

O texto está no livro A Descoberta do Mundo, que é uma coletânea de crônicas, publicadas no Jornal do Brasil, entre 1967 e 1973. 



Marc Chagall: Vaca vermelha no céu amarelo



segunda-feira, 18 de abril de 2016

A escola dos meus pais (Luís dos Anjos)



A escola dos meus pais

No tempo dos meus pais, quando em cada aldeia deste país, por mais escondida que estivesse na encosta de uma serra, havia pelo menos vinte ou trinta crianças na escola primária, a escolaridade terminava, na esmagadora maioria dos casos, na quarta classe.

Com a conclusão da quarta classe as crianças sabiam ler, escrever e contar e sabiam igualmente de cor os nomes dos rios e dos seus afluentes, das serras e das linhas férreas de norte a sul do país. Por outras palavras, dominavam a língua materna, a matemática básica e conheciam, pelo menos no mapa, o país onde viviam. Eram estas as ferramentas que lhes eram dadas para lutarem pela vida. E tudo isto era conseguido com enormes sacrifícios, pois naqueles tempos a vida, sobretudo nos meios rurais, não era fácil, e não raras vezes antes da ida para a escola os mais novos ainda tinham de ajudar os pais nas lides do campo ou da casa. Só depois seguiam para a escola, munidos de uma sacola de pano ou serapilheira onde levavam uma lousa, giz, a tabuada e pouco mais. Na escola esperava-os uma sala de aula sem qualquer conforto, com um estrado de onde o professor dava a aula, e nas paredes um mapa de Portugal, as fotografias dos governantes da pátria e um crucifixo. Não havia placards com desenhos coloridos nem cartazes. A tudo isto juntava-se um método de ensino básico e austero, assente em grande parte no medo das reguadas. Admiro, pois, a vontade que estas crianças tinham em aprender a juntar as letras e a somar dois mais dois. Admiro a capacidade com que souberam, mais tarde, já adultos, ultrapassar as dificuldades da vida e proporcionar a toda uma nova geração (a minha) uma janela de oportunidades incomparavelmente maior.

Na história do nosso país a geração dos meus pais foi aquela que, inquestionavelmente, teve de lidar com o maior conflito de gerações e salto educacional: foram eles que fizeram a ligação entre um analfabetismo quase global da geração dos meus avós e uma geração de doutores e engenheiros.

Luís dos Anjos

(Fonte)



sexta-feira, 15 de abril de 2016

Bailado (Pedro Homem de Mello)

Fotografia de Fábio Pinheiro





BAILADO

A árvore dançou. E, no entanto,
Seu tronco, inverosímil, não buliu.
O vento sacudiu-lhe o verde manto…
Mas o que foi que o vento sacudiu?

Nunca ninguém pôde saber, ao certo
Se os ramos, de formosos, nos mentiram
Ou, se de os ver, ai! se de os ver tão perto
Os nossos olhos quase não os viram.

Quem bailaria ao som daquela voz?
Quem lhe deu sangue e força verdadeira?
A árvore dançou, oculta em nós.
E o vento fomos nós na terra inteira.

Pedro Homem de Mello



Eu Hei-de Voltar Um Dia, Lisboa, Edições Ática, 1966




segunda-feira, 11 de abril de 2016

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio (Reis / Pessoa)

Fotografia de Elizier Santos



Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e caricias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

12-6-1914

Ricardo Reis


Odes de Ricardo Reis. Fernando Pessoa.




sexta-feira, 8 de abril de 2016

Instituto Moreira Salles


O Instituto Moreira Salles é uma organização sem fins lucrativos fundada por Walther Moreira Salles em 1990. É administrada pela família Moreira Salles e tem por finalidade exclusiva a promoção e o desenvolvimento de programas culturais atuando principalmente em cinco áreas: fotografia, literatura, biblioteca, artes plásticas e música brasileira.

Parte dos acervos fotográficos, literários, musicais e de artes plásticas estão disponíveis para consulta no site da instituição , assim como em seus centros culturais do (Rio de Janeiro, São Paulo e Poços de Caldas), quatro Galerias (São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Porto Alegre). Possuí ainda, Reservas Técnicas nas áreas de Fotográfica, Música, Biblioteca e Pinacoteca - localizadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, além de um canal de rádio na internet.

Algumas características diferenciam o IMS de outras instituições culturais privadas do Brasil e do exterior. Uma delas diz respeito à sua forma direta de intervenção: contrapondo-se à prática do mecenato tradicional, a instituição prefere atuar fundamentalmente em iniciativas que ela própria concebe e executa. Outro fator que singulariza a atuação do Instituto Moreira Salles é a prioridade que ele confere a projetos de médio e longo prazos, o que significa escapar da fugacidade dos eventos, desenvolvendo programas regulares voltados para a formação e o aprimoramento do público.

(Wikipédia)





Instituto Moreira Salles no Rio de Janeiro



quinta-feira, 7 de abril de 2016

Arte poética (Mário Dionísio)




ARTE POÉTICA

A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou prague­jando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
— e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.
A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.

Mário Dionísio


(Lido no blogue Voar fora da asa)




segunda-feira, 4 de abril de 2016

Cão com lágrimas (José Saramago)

Fotografia de Sónia Furtado



Cão com lágrimas

22 de agosto de 1994

Pela primeira vez em tanto subir e descer de avião, pudemos ver, do alto, a casa. Com a família toda ausente, em férias, e Luis a trabalhar à hora a que chegámos, só tínhamos o Pepe a receber-nos. O pobre animal nem podia acreditar que estávamos ali. Saltava de um para outro, enroscava-se nos nossos braços, gemia de um modo quase humano, e diabos me levem se não eram lágrimas, das autênticas, o que víamos correr-lhe dos olhos. A este cão, com perdão da vulgaridade, só lhe falta falar. Mais tarde, conversando com Pilar, manifestei uma pena: ter vivido sem cães até agora. Na Azinhaga não faltavam, já se sabe, houve-os em casa dos meus avós, mas não eram meus, olhavam-me desconfiados quando eu lá aparecia depois de uma ausência e só passados uns dias é que começavam a tolerar-me. Além disso, estavam ali para guardar a casa e o quintal, valiam pela utilidade que tinham e só enquanto a tivessem. Não me lembro de que algum deles chegasse a velho. Pensei nos golfinhos de Edmonton, tão bem ensinados, e, embora não goste de ver exibições de animais amestrados, achei que alguma razão profunda terá de haver para que certos animais consigam suportar a presença humana... Perdi essa confiança à noite, vendo na televisão como um elefante, num circo, matava a patadas e golpes da tromba o domador, enquanto a música tocava e o público cria que tudo aquilo fazia parte do espetáculo. À noite, quando me deitei, extenuado por uma viagem de quase vinte e quatro horas entre voos e esperas de aeroporto, custou-me a adormecer: via os golfinhos sorridentes, o elefante enfurecido calcando o corpo já destroçado do domador. Foi então que me lembrei de uma velha crónica, de 1968, Os Animais Doidos de Cólera, em que imaginei a insurreição de todos os animais e a morte do último homem devorado por formigas, pela primeira vez lutando, não contra a humanidade, mas, agora já inutilmente, para defender o que restava dela... E também me lembrei do poema 12 de O Ano de 1993, aquele que acaba assim: «Privadas dos animais domésticos as pessoas dedicaram-se ativamente ao cultivo de flores / Destas não há que esperar mal se não for dada excessiva importância ao recente caso de uma rosa carnívora»... Alguma coisa está definitivamente errada no ser humano. Morrerei sem saber o quê.

José Saramago
(Cadernos de Lanzarote, 2)


(Outros Cadernos de Saramago)


sexta-feira, 1 de abril de 2016

Povoamento (Ruy Belo)




POVOAMENTO

No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera

Ruy Belo


De Aquele Grande Rio Eufrates (1961)