POESÍA a rodos Textos em português (literários e não literarios) Vídeos com histórias

quinta-feira, 31 de março de 2016

O eco (Antero de Alda)



O eco, poema visual de 2005 de Antero de Alda.


Gifpoemas, de Antero de Alda.


O blog dele, Câmara antiga.


Dados biográficos
Antero de Alda nasceu em 1961.
Formado em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, é mestre em Tecnologias pela Universidade do Minho
Vive e trabalha em Amarante.


Pêndulo (E.M. de Melo e Castro)




E.M. de Melo e Castro (Covilhã, 1932) na Wikipédia e na página de Antonio Miranda (nesta para além de dados biográficos, há mais poemas dele).

Na Wikipédia lemos: E. M. de Melo e Castro, nome literário de Ernesto Manuel Geraldes de Melo e Castro é um engenheiro, escritor, poeta experimental, crítico, ensaísta e artista plástico português.




Haverá mais poesia visual no blogue. Este é apenas o segundo exemplo. O primeiro é o poema de Antero de Alda.





terça-feira, 29 de março de 2016

Queixa das almas jovens censuradas (Natália Correia)

Natália Correia


QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

Natália Correia


Dimensão encontrada (1957).

Natália Correia





Poema de Natália Correia
Música de José Mário Branco sobre um desenho de Jean Cocteau (1889-1963)


sábado, 19 de março de 2016

Quando vier a Primavera (Caeiro / Pessoa)




Fernando Pessoa lido com sotaque português e brasileiro:

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;

E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

7-11-1915

Alberto Caeiro / Fernando Pessoa







sexta-feira, 18 de março de 2016

Meditação do Duque de Gandia... (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Rita Loureiro


Com este belo poema de Sophia de Mello Breyner Andresen celebramos antecipadamente o Dia Mundial da Poesia (21 de março).

Desconheço a causa de a última estrofe do poema, que cá podemos ouvir nas duas versões, não aparecer na maioria das pesquisas que fiz. O último verso nelas é "Nunca mais servirei senhor que possa morrer."



MEDITAÇÃO DO DUQUE DE GANDIA
SOBRE A MORTE DE ISABEL DE PORTUGAL

Nunca mais
a tua face será pura limpa e viva,
nem teu andar como onda fugitiva
se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
do teu ser. Em breve a podridão
beberá os teus olhos e os teus ossos
tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
sempre,
porque eu amei como se fossem eternos
a glória, a luz e o brilho do teu ser,
amei-te em verdade e transparência
e nem sequer me resta a tua ausência,
és um rosto de nojo e negação
e eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

Nunca mais te darei o tempo puro
Que em dias demorados eu teci
Pois o tempo já não regressa a ti
E assim eu não regresso e não procuro
O deus que sem esperança te pedi.

Sophia de Mello Breyner Andresen 



Isabel de Portugal, de Ticiano, no Museu do Prado


Em 1529 faleceu a imperatriz Isabel da Alemanha, esposa de Carlos V e filha de D. Manuel de Portugal. A imperatriz estava no auge da sua beleza e do seu poder, sendo estimada e respeitada por todos na Alemanha. Carlos V decidiu que Francisco de Borja, futuro duque de Gandía, deveria acompanhar os restos mortais de D. Isabel até ao panteão real de Espanha, em Granada. Aí chegados, quinze dias depois, e sob um sol abrasador, Francisco de Borja teve que reconhecer o corpo já em adiantado estado de decomposição. Nessa altura reflectiu profundamente sobre a fragilidade das glórias do mundo e decidiu que só valia a pena amar a Deus, o único ser que é eterno: nunca mais amarei quem não possa viver sempre!

Mais tarde, devido àquela decisão, S. Francisco de Borja irá ingressar na Companhia de Jesus de que seria figura destacada.

(Fonte: "São Francisco de Borja" em História 8)



Ana Paiva




segunda-feira, 14 de março de 2016

A canção “Língua” de Caetano Veloso – um minucioso tratado da Língua Portuguesa (Luiz Antônio Ribeiro)

Versão ao vivo de 2012 de uma canção publicada em 1984


Este é um artigo de Luiz Antônio Ribeiro, publicado em Literatortura


LÍNGUA

Gosta de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
"Minha pátria é minha língua"
Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E - xeque-mate - explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
(- Será que ele está no Pão de Açúcar?
- Tá craude brô
- Você e tu
- Lhe amo
- Qué queu te faço, nego?
- Bote ligeiro!
- Ma'de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado!
- Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho!
- I like to spend some time in Mozambique
- Arigatô, arigatô!)
Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem


A  canção “Língua” de Caetano Veloso – um minucioso tratado da Língua Portuguesa

As discussões sobre nossa Língua Portuguesa sempre suscitaram muitas questões que, na maioria das vezes, não puderam ser respondidas com precisão ou sem levar em conta idiossincrasias pessoais e de um momento histórico. Acontece que toda discussão da língua é uma meta-discussão que inclui em si as impossibilidades da própria. De qualquer forma, sempre me interessou a relação que temos entre gramática, uso comum e diferenças com o português de Portugal. O linguista Marcos Bagno, no livro Português ou Brasileiro?, questiona se ainda falamos português ou já podemos dizer que somos falantes e viventes de uma língua “brasileira”. Questões teóricas à parte, o que se pode dizer é que a língua é sempre viva e deve ser celebrada por aquilo que ela manifesta: a cultura, a música, a arte, o pensamento, enfim, as subjetividades.

Para isso, resolvi analisar passo a passo a canção Língua de Caetano Veloso, a fim de esmiuçar diversas questões sobre nossa língua mãe nela expostas. Como metodologia, a matéria seguirá assim: cito a letra de Caetano e embaixo faço a breve análise referente ao trecho.

Gosta de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões

A canção começa, não por acaso, com a palavra “gosto”, que pode remeter também ao gostar no sentido comum, de ter preferência por algo, como também do sentido do paladar – língua como parte do corpo e não como apenas linguagem, objeto da fala, o que é criado no horizonte de expectativa criado pro Caetano.

Gostar de roçar a língua de Luís de Camões é quase uma celebração sexual do encontro das duas pontas de nossa língua: a falada pelo poeta português escritor d’Os Lusíadas, principal formatador do que conhecemos como Língua Portuguesa, com aquilo que se tem de mais contemporâneo: a música popular e a língua do rap.

Gosto de ser e de estar

Gostar de ser e de estar é se ver diferente, e quem sabe melhor, do que a Língua Inglesa onde o verbo to be concentra os dois em apenas um. Enquanto ser remete a uma permanência, a uma possibilidade de essência, o estar é uma posição transitória, um estado, coisas que não podem ser expressas, pelo menos não com nossa precisão pela língua anglo-saxã.

E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões

Eis a função do poeta: confundir prosódias, ou seja, tipos de fala, sotaques, ritmos, acentos, misturando tudo em um amálgama poético. Profundir paródias, também uso do poeta, está ligado ao fato do Caetano, entre outras coisas, se utilizar do rap para contar sua história da língua.

A paródia é um termo grego que vem de para – ao lado (paralela) e odes (canto), então uma paródia é uma forma de cantar ao lado, que se refere ao original, mas transforma-o, muitas vezes ironiza-o. No caso de Língua, Caetano canta ao lado de um estilo fixo – o rap – o seu rap celebração, cuja função seria, segundo ele, encurtar as dores e furtar as cores (quem não se lembra daquelas réguas furta-cor que usávamos na infância?), como um camaleão.

Gosto do Pessoa na pessoa 
Da rosa no Rosa 

Aqui temos a utilização dupla dos substantivos: Pessoa – Fernando Pessoa e Rosa – Guimarães Rosa, ambos sendo, ao mesmo tempo pessoas e rosas.

E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?

A relação entre amor e amizade foi muito explorada no decorrer da nossa história. Segundo Aristóteles, a amizade é superior ao amor porque dela se extrai uma relação moral, ou seja, existe nela uma incondicionalidade da bondade, diferente do pathos do amor que gera uma espécie de cegueira e engano no amador. É por isso que Caetano afirma, nesse ponto, que a poesia está para prosa assim como o amor está para a amizade: a prosa é controlada, moral, útil enquanto a poesia é o extravasamento do sentimento, mesmo que isso represente um fato “imoral”.

E deixe os Portugais morrerem à míngua “Minha pátria é minha língua” Fala Mangueira! Fala!

“Minha Pátria é minha língua” é uma frase do poema do O Livro do Desassossego de Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa, no qual ele diz que seu apego não está ligado à nação, à pátria como um território, uma terra, que tudo isso lhe pode ser retirado, mas sua língua é sua grande referência de sentimento nacional, de pertencimento. Por isso, em língua, “minha pátria é minha língua” se resume apenas em “Fala Mangueira”, para dar voz à nossa voz.

Flor do Lácio Sambódromo

Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Última Flor do Lácio é como ficou conhecida nossa Língua Portuguesa. As línguas neolatinas são todas conhecidas como línguas do “Lácio”, região europeia. O termo chega até nós pelo poema de Olavo Bilac, lembrando que o português é chamado de inculto justamente por que vem do latim vulgar:

“Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura”

Sambódromo é uma das palavras mais recentes do português, criação tipicamente brasileira que mistura samba – de origem africana – e o sufixo dromos – do grego, lugar onde se corre (autódromo, kartódromo).

Flor do Lácio Sambódromo é contar a história de nossa língua em uma linha.

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!

A sintaxe dos paulistas é conhecida por grande parte de nossa população, por isso vou dar apenas um exemplo: aquela parte italianada, principalmente da Mooca que se utiliza de frases como: Mas vê se não ME pega uma gripe! Mas vê se não ME fica na chuva! Esse “me” sem função sintática, apenas de cunho enfático representa bem aquilo que Caetano tentou dizer.

O falso inglês relax dos surfistas é aquele do: “po brother…coé…mó vibe…”. Precisa dizer mais?

Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda

E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E – xeque-mate – explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo

Quem não conhece, devia conhecer a dicção que Caetano destaca de Carmem Miranda. Ela possui uma forma única de cantar, apressada, silábica, rítmica, percussiva, apenas alguns dos motivos que fizeram os americanos se apaixonarem pelo seu canto.

A questão é que, de certa forma, ficamos “mirandados”, ou seja, mesmo que Carmem negue, ficamos “americanizados” e foi preciso um Chico Buarque nos trazer de volta para África – e o fez – com a canção Morena de Angola que nos religa, definitivamente, com Luanda, apesar da televisão afirmar e tentar nos criar para o contrário.

Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem

Thomas Hobbes afirmou que “o homem é o lobo do homem” para dizer que somos nossos próprios algozes e agentes de nossa própria destruição, e, de certa forma, servimos de alimento a nós mesmos. O movimento antropofágico brasileiro, a partir do manifesto de Oswald de Andrade, se utiliza do conceito que Caetano resignifica na canção: ser o lobo do lobo do lobo do lobo do homem…

Trata-se de um movimento espiral e infinito de se alimentar de todas as culturas, manifestações, estilos e proposições culturais, incorporá-las e transformá-las para nosso contexto. Se o homem é o lobo do homem é preciso, então, comer o lobo e comer o homem.

Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã

Adorar os nomes em ã tem a ver com o fato de que o til, o som nasal na vogal A fazendo um Ã-AN como diferença estrutural é uma das características principais do português. Adorar nossa língua é, por fim, adorar nosso til.

Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé

Quem não conhece ninguém que tenha um nome baseado em um nome de outra pessoa? Scarlet Moon de Chevalier é Scarlet Moon, uma brasileira – de Chevalier – esposa de Lulu Santos falecida há pouco tempo. Glauco Mattoso é o poeta concreto que tem esse nome porque tinha um glaucoma que poderia matá-lo. Maria da Fé – é de nossas eternas Marias com nomes filhotes da mãe de Jesus! Eis a formação dos nomes brasileiros com seus Allain Dellons da Silva, gêmeas Grace e Kelly, entre outros.

Se você tem uma ideia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão

Como a filosofia tradicional é, em geral, toda alemã, cria-se uma ideia de que aqui não se faz filosofia. Creio que faz, mas uma filosofia ainda mais intensa como a dessa canção que agora analiso. Concordo com Caetano: se tiver uma ideia incrível – faça uma canção e deixe as filosofias para a Alemanha, afinal, algumas violências vieram justamente dessas filosofias.

Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo

Atualmente esses termos como Blitz ou Hollywood já foram incorporados em nossa língua, mas é possível em alguns dicionários antigos realmente ver que a cidade dos filmes americanos vem de uma palavra que era traduzida aqui como “Azevedo”. Não consegui achar o motivo, não há registros, mas só a menção numa canção já é um registro, ou não?

A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria

A pátria, pelo termo, vem daquele que é nosso pai. Assim, a língua, representante da pátria seria uma espécie de pai. Entretanto, conhecemos o português como “Língua mãe” e até nosso país é mãe até em nosso hino: “dos filhos desse solo, MÃE gentil, pátria amada, Brasil.”

No entanto, tanto a imagem do pai como da mãe, desde as questões freudianas até as foucaultianas são palco de traumas e poderes. Caetano, então, propõe que a língua seja frátria – irmã – e que esteja ao lado, não por cima, numa hierarquia.

Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura Samba-rap, chic-left com banana
 (- Será que ele está no Pão de Açúcar?
 – Tá craude brô 
– Você e tu
 – Lhe amo 
– Qué queu te faço, nego?
 – Bote ligeiro! 
– Arigatô, arigatô!)

Caetano aqui aponta nossos usos e nossos futuros: por um lado uma poesia concreta e uma prosa caótica, ao lado de um samba-rap, ritmo da própria canção que ele fez, e de outros vários usos da nossa língua pelo nosso povo das maneiras mais diversas, misturando inglês, vozes verbais, mudando inclusive o uso dos pronomes.

Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem.

E para finalizar, nossos invejosos daqui das línguas de lá, querendo imitar os americanos e seu jeito medíocre e quase tribal de falar (uma língua de apenas justaposições, sem nada de arco-íris, apenas arcos de chuva [rainbow]). Enfim, inveja essa para quê?

Sendo assim, que fale nossa canção, que fale Jair Rodrigues: deixa que digam, que pensem, que falem.

Luiz Antonio Ribeiro

Formado em Teoria do Teatro pela UNIRIO, mestrando em Memória Social na área de poesia brasileira e graduando do curso de Letras/Literaturas. É adepto da leitura, pesquisa, cinema, cerveja, Flamengo e ócio criativo. Em geral, se arrepende do que escreve.


Artigo retirado de Literatortura




domingo, 13 de março de 2016

Agualusa e Nassar, semifinalistas do Man Booker International Prize 2016

José Eduardo Agualusa


José Eduardo Agualusa é um dos 13 semifinalistas do Man Booker International Prize 2016

Lisboa, 10 mar (Lusa) – O escritor angolano José Eduardo Agualusa é um dos 13 semifinalistas do Man Booker International Prize, anunciou hoje a organização.

A mais longa lista de sempre do Man Booker International Prize inclui ainda o escritor brasileiro, de origem libanesa, Raduan Nassar; completando-se com Elena Ferrante (Itália), Han Kang (Coreia do Sul), Maylis de Kerangal (França); Eka Kurniawan (Indonésia); Yan Lianke (China); Fiston Mwanza Mujila (República Democrática do Congo); Marie NDiaye (França); Kenzaburō Ōe (Japão); Aki Ollikainen (Finlândia); Orhan Pamuk (Turquia) e Robert Seethaler (Áustria).

(...)

Existe outro autor de língua portuguesa entre os nomeados: Raduan Nassar, o brasileiro de 80 anos, autor de poucos mas fabulosos livros como Lavoura Arcaica (1975) e Um Copo de Cólera (1978) – romance que foi agora editado em inglês pela Penquin Modern Classics e com o qual está nomeado para este prémio.


Notícia no Observatório da Língua Portuguesa



 Raduan Nassar


quinta-feira, 10 de março de 2016

O Hóspede de Job (José Cardoso Pires)



No gabinete de Leandro começara a agitação: cadeiras que se arrastavam, troca de saudações, uma máquina que escrevia e a manivela do telefone a rodar, a vencer distâncias pela noite. Ouviu-se um berro do sargento:
– A presa!
À rapariga de Cimadas a ordem do Leandro soou-lhe como uma chicotada. Sentiu um arrepio e logo a seguir uma dor morna no estômago, um malestar lento e teimoso, e calculou que era o medo, a dor do medo. Percebeu também que tinha a mão do guarda pousada no ombro – solta, sem vontade. Não era a garra de um carrasco, nem tão-pouco um sinal encorajador; era, quando muito, o gesto quase simbólico do carcereiro que se prepara para desligar da presa.
Floripes retirou para longe de si a mão que se demorara sobre ela. Depois, descalça e compondo o cabelo, encaminhou-se para a porta.
– Vira-te para a parede – ouviu dizer no corredor; e notou que era um dos algemados dando uma ordem um ao outro. Passou por esses vultos, ambos espalmados e unidos na penumbra, e não lhe deram tempo para ver mais nada. Acabava de entrar no gabinete de Leandro.
Ali havia o sargento e havia um homem gordo de samarra e boina à espanhola que, mal ela chegou, não fez outra coisa senão mirá-la. Rodeou-a, mediu-a dos pés à cabeça, pela frente, pelas costas, como quem aprecia um animal de feira.
– Ora, muito bem, mocinha. – O sargento alinhou meia dúzia de fotografias sobre o tampo da secretária. – Conheces algum destes fulanos? O gordo de boina à espanhola veio colocar-se junto de Leandro, estudando a rapariga, enquanto ela passava, um por um, os retratos. Deitado para trás na cadeira, o sargento desfrutava o espetáculo. No fim de tudo sorriu:
– Não conheces ninguém, não é assim?
– Não, senhor.
– Pois é. Tens fraca memória, coitadinha. Tens fraca memória, não tens? – O sargento virou-se para o gordo: – Come muito queijo, compreende o senhor? E é pena. Uma mocinha como ela até parece mal ser tão esquecida. Lá em casa não te dão ovos, menina?

José Cardoso Pires


De O hóspede de Job


Prémio Camilo Castelo Branco
1.ª edição - Editora Arcádia, 1972



Uma resenha em .Dos meus livros



segunda-feira, 7 de março de 2016

As cerejas (Lygia Fagundes Telles)



AS CEREJAS

Aquela gente teria mesmo existido? Madrinha tecendo a cortina de crochê com um anjinho a esvoaçar por entre rosas, a pobre Madrinha sempre afobada, piscando os olhinhos estrábicos, "vocês não viram onde deixei meus óculos?" A preta Dionísia a bater as claras de ovos em ponto de neve, a voz ácida contrastando com a doçura dos cremes, "esta receita é nova..." Tia Olívia enfastiada e lânguida, abanando-se com uma ventarola chinesa, a voz pesada indo e vindo ao embalo da rede, "fico exausta no calor..." Marcelo muito louro - por que não me lembro da voz dele? - agarrado à crina do cavalo, agarrado à cabeleira de tia Olívia, os dois tombando lividamente azuis sobre o divã. "Você levou as velas à tia Olívia?", perguntou Madrinha lá embaixo. O relâmpago apagou-se. E no escuro que se fez, veio como resposta o ruído das cerejas se despencando no chão.

A casa em meio do arvoredo, o rio, as tardes como que suspensas na poeira do ar - desapareceu tudo sem deixar vestígios. Ficaram as cerejas, só elas resistiram com sua vermelhidão de loucura. Basta abrir a gaveta: algumas foram roídas por alguma barata e nessas o algodão estoura, empelotado, não, tia Olívia, não eram de cera, eram de algodão suas cerejas vermelhas.

Ela chegou inesperadamente. Um cavaleiro trouxe o recado do chefe da estação pedindo a charrete para a visita que acabara de desembarcar.

- É Olívia! - exclamou Madrinha. - É a prima! Alberto escreveu dizendo que ela viria, mas não disse quando, ficou de avisar. Eu ia mudar as cortinas, bordar umas fronhas e agora!... Justo Olívia. Vocês não podem fazer idéia, ela é de tanto luxo e a casa aqui é tão simples, não estou preparada, meus céus! O que é que eu faço, Dionísia, me diga agora o que é que eu faço!

Dionísia folheava tranqüilamente um livro de receitas. Tirou um lápis da carapinha tosada e marcou a página com uma cruz.

- Como se já não bastasse esse menino que também chegou sem aviso...

O menino era Marcelo. Tinha apenas dois anos mais do que eu mas era tão alto e parecia tão adulto com suas belas roupas de montaria, que tive vontade de entrar debaixo do armário quando o vi pela primeira vez.

- Um calor na viagem! - gemeu tia Olívia em meio de uma onda de perfumes e malas. - E quem é este rapazinho?

- Pois este é o Marcelo, filho do Romeu - disse Madrinha. - Você não se lembra do Romeu? Primo-irmão do Alberto...

Tia Olívia desprendeu do chapeuzinho preto dois grandes alfinetes de pérola em formado de pêra. O galho de cerejas estremeceu no vértice do decote da blusa transparente. Desabotoou o casaco.

- Ah, minha querida, Alberto tem tantos parentes, uma família enorme! Imagine se vou me lembrar de todos com esta minha memória. Ele veio passar as férias aqui?

Por um breve instante Marcelo deteve em tia Olívia o olhar frio. Chegou a esboçar um sorriso, aquele mesmo sorriso que tivera quando Madrinha, na sua ingênua excitação, nos apresentou a ambos, "pronto, Marcelo, aí está sua priminha, agora vocês poderão brincar juntos". Ele então apertou um pouco os olhos. E sorriu.

- Não estranhe, Olívia, que ele é por demais arisco - segredou Madrinha ao ver que Marcelo saía abruptamente da sala. - Se trocou comigo meia dúzia de palavras, foi muito. Aliás, toda a gente de Romeu é assim mesmo, são todos muito esquisitos. Esquisitíssimos!

Tia Olívia ajeitou com as mãos em concha o farto coque preso na nuca. Umedeceu os lábios com a ponta da língua.

- Tem charme...

Aproximei-me fascinada. Nunca tinha visto ninguém como tia Olívia, ninguém com aqueles olhos pintados de verde e com aquele decote assim fundo.

- É de cera? - perguntei tocando-lhe uma das cerejas.

Ela acariciou-me a cabeça com um gesto distraído. Senti bem de perto seu perfume.

- Acho que sim, querida. Por quê? Você nunca viu cerejas?

- Só na folhinha.

Ela teve um risinho cascateante. No rosto muito branco a boca parecia um largo talho aberto, com o mesmo brilho das cerejas.

- Na Europa são tão carnudas, tão frescas.

Marcelo também tinha estado na Europa com o avô. Seria isso? Seria isso que os fazia infinitamente superiores a nós? Pareciam feitos de outra carne e pertencer a um outro mundo tão acima do nosso, ah! como éramos pobres e feios. Diante de Marcelo e tia Olívia, só diante dos dois é que eu pude avaliar como éramos pequenos: eu, de unhas roídas e vestidos feitos por Dionísia, vestidos que pareciam as camisolas das bonecas de jornal que Simão recortava com a tesoura do jardim. Madrinha, completamente estrábica e tonta em meio das suas rendas e crochês. Dionísia, tão preta quanto enfatuada com as tais receitas secretas.

- Não quero é dar trabalho - murmurou tia Olívia dirigindo-se ao quarto. Falava devagar, andava devagar. Sua voz foi se afastando com a mansidão de um gato subindo a escada. - Cansei-me muito, querida. Preciso apenas de um pouco de sossego...

Agora só se ouvia a voz de Madrinha que tagarelava sem parar: a chácara era modesta, modestíssima, mas ela haveria de gostar, por que não? O clima era uma maravilha e o pomar nessa época do ano estava coalhado de mangas. Ela não gostava de mangas? Não?... Tinha também bons cavalos se quisesse montar, Marcelo poderia acompanhá-la, era um ótimo cavaleiro, vivia galopando dia e noite. Ah, o médico proibira? Bem, os passeios a pé também eram lindos, havia no fim do caminho dos bambus um lugar ideal para piqueniques, ela não achava graça num piquenique?

Fui para a varanda e fiquei vendo as estrelas por entre a folhagem da paineira. Tia Olívia devia estar sorrindo, a umedecer com a ponta da língua os lábios brilhantes. Na Europa eram tão carnudas... Na Europa.

Abri a caixa de sabonete escondida sob o tufo de samambaia. O escorpião foi saindo penosamente de dentro. Deixei-o caminhar um bom pedaço e só quando ele atingiu o centro da varanda é que me decidi a despejar a gasolina. Acendi o fósforo. As chamas azuis subiram num círculo fechado. O escorpião rodou sobre si mesmo, erguendo-se nas patas traseiras, procurando uma saída. A cauda contraiu-se desesperadamente. Encolheu-se. Investiu e recuou em meio das chamas que se apertavam mais.

- Será que você não se envergonha de fazer uma maldade dessas?

Voltei-me. Marcelo cravou em mim o olhar feroz. Em seguida, avançando para o fogo, esmagou o escorpião no tacão da bota.

- Diz que ele se suicida, Marcelo...

- Era capaz mesmo quando descobrisse que o mundo está cheio de gente como você.

Tive vontade de atirar-lhe a gasolina na cara. Tapei o vidro.

- E não adianta ficar furiosa, vamos, olhe para mim! Sua boba. Pare de chorar e prometa que não vai mais judiar dos bichos.

Encarei-o. Através das lágrimas ele pareceu-me naquele instante tão belo quanto um deus, um deus de cabelos dourados e botas, todo banhado de luar. Fechei os olhos. Já não me envergonhava das lágrimas, já não me envergonhava de mais nada. Um dia ele iria embora do mesmo modo imprevisto como chegara, um dia ele sairia sem se despedir e desapareceria para sempre. Mas isso também já não tinha importância. Marcelo, Marcelo! chamei. E só meu coração ouviu.

Quando ele me tomou pelo braço e entrou comigo na sala, parecia completamente esquecido do escorpião e do meu pranto. Voltou-lhe o sorriso.

- Então é essa a famosa tia Olívia? Ah, ah, ah.

Enxuguei depressa os olhos na barra da saia.

- Ela é bonita, não?

Ele bocejou.

- Usa um perfume muito forte. E aquele galho de cerejas dependurado no peito. Tão vulgar.

- Vulgar?

Fiquei chocada. E contestei mas em meio da paixão com que a defendi, senti uma obscura alegria ao perceber que estava sendo derrotada.

- E, além do mais, não é meu tipo - concluiu ele voltando o olhar indiferente para o trabalho de crochê que Madrinha deixara desdobrado na cadeira. Apontou para o anjinho esvoaçando entre grinaldas.

- Um anjinho cego.

- Por que cego? - protestou Madrinha descendo a escada. Foi nessa noite que perdeu os óculos. - Cada idéia, Marcelo!

Ele debruçara-se na janela e parecia agora pensar em outra coisa.

- Tem dois buracos em lugar dos olhos.

- Mas crochê é assim mesmo, menino! No lugar de cada olho deve ficar uma casa vazia - esclareceu ela sem muita convicção. Examinou o trabalho. E voltou-se nervosamente para mim. - Por que não vai buscar o dominó para vocês jogarem uma partida? E vê se encontra meus óculos que deixei por aí.

Quando voltei com o dominó, Marcelo já não estava na sala. Fiz um castelo com as pedras. E soprei-o com força. Perdia-o sempre, sempre. Passava as manhãs galopando como louco. Almoçava rapidamente e mal terminava o almoço, fechava-se no quarto e só reaparecia no lanche, pronto para sair outra vez. Restava-me correr ao alpendre para vê-lo seguir em direção à estrada, cavalo e cavaleiro tão colados um ao outro que pareciam formar um corpo só.

Como um só corpo os dois tombaram no divã, tão rápido o relâmpago e tão longa a imagem, ele tão grande, tão poderoso, com aquela mesma expressão com que galopava como que agarrado à crina do cavalo, arfando doloridamente na reta final.

Foram dias de calor atroz os que antecederam à tempestade. A ansiedade estava no ar. Dionísia ficou mais casmurra. Madrinha ficou mais falante, procurando disfarçadamente os óculos nas latas de biscoitos ou nos potes de folhagens, esgotada a busca em gavetas e armários. Marcelo pareceu-me mais esquivo, mais crispado. Só tia Olívia continuava igual, sonolenta e lânguida no seu negligê branco. Estendia-se na rede. Desatava a cabeleira. E com um movimento brando ia se abanando com a ventarola. Às vezes vinha com as cerejas que se esparramavam no colo polvilhado de talco. Uma ou outra cereja resvalava por entre o rego dos seios e era então engolida pelo decote.

- Sofro tanto com o calor...

Madrinha tentava animá-la.

- Chovendo, Olívia, chovendo você verá como vai refrescar.

Ela sorria umedecendo os lábios com a ponta da língua.

- Você acha que vai chover?

- Mas claro, as nuvens estão baixando, a chuva já está aí. E vai ser um temporal daqueles, só tenho medo é que apanhe esse menino lá fora. Você já viu menino mais esquisito, Olívia? Tão fechado, não? E sempre com aquele arzinho de desprezo.

- É da idade, querida. É da idade.

- Parecido com o pai. Romeu também tinha essa mesma mania com cavalo.

- Ele monta tão bem. Tão elegante.

Defendia-o sempre enquanto ele a atacava, mordaz, implacável: "É afetada, esnobe. E como representa, parece que está sempre no palco". Eu contestava, mas de tal forma que o incitava a prosseguir atacando.

Lembro-me de que as primeiras gotas de chuva caíram ao entardecer, mas a tempestade continuava ainda em suspenso, fazendo com que o jantar se desenrolasse numa atmosfera abafada. Densa. Pretextando dor de cabeça, tia Olívia recolheu-se mais cedo. Marcelo, silencioso como de costume, comeu de cabeça baixa. Duas vezes deixou cair o garfo.

- Vou ler um pouco - despediu-se assim que nos levantamos.

Fui com Madrinha para a saleta. Um raio estalou de repente. Como se esperasse por esse sinal, a casa ficou completamente às escuras enquanto a tempestade desabava.

- Queimou o fusível! - gemeu Madrinha. - Vai, filha, vai depressa buscar o maço de velas, mas leva primeiro ao quarto de tia Olívia. E fósforos, não esqueça os fósforos!

Subi a escada. A escuridão era tão viscosa, que se eu estendesse a mão poderia senti-la amoitada como um bicho por entre os degraus. Tentei acender a vela mas o vento me envolveu. Escancarou-se a porta do quarto. E em meio do relâmpago que rasgou a treva, vi os dois corpos completamente azuis, tombando enlaçados no divã.

Afastei-me cambaleando. Agora as cerejas se despencavam sonoras como enormes bagos de chuva caindo de uma goteira. Fechei os olhos. Mas a casa continuava a rodopiar desgrenhada e lívida com os dois corpos rolando na ventania.

- Levou as velas para a tia Olívia? - perguntou Madrinha.

Desabei num canto, fugindo da luz do castiçal aceso em cima da mesa.

- Ninguém respondeu, ela deve estar dormindo.

- E Marcelo?

- Não sei, deve estar dormindo também.

Madrinha aproximou-se com o castiçal.

- Mas que é que você tem, menina? Está doente? Não está com febre? Hem?! Sua testa está queimando... Dionísia, traga uma aspirina, esta menina está com um febrão, olha aí!

Até hoje não sei quantos dias me debati esbraseada, a cara vermelha, os olhos vermelhos, escondendo-me debaixo das cobertas para não ver por entre clarões de fogo milhares de cerejas e escorpiões em brasa, estourando no chão.

- Foi um sarampo tão forte - disse Madrinha ao entrar certa manhã no quarto. - E como você chorava, dava pena ver como você chorava! Nunca vi um sarampo doer tanto assim.

Sentei-me na cama e fiquei olhando uma borboleta branca pousada no pote de avencas da janela. Voltei-me em seguida para o céu limpo. Havia um passarinho cantando na paineira. Madrinha então disse:

- Marcelo foi-se embora ontem à noite, quando vi, já estava de mala pronta, sabe como ele é. Veio até aqui se despedir, mas você estava dormindo tão profundamente.

Dois dias depois, tia Olívia partia também. Trazia o costume preto e o chapeuzinho com os alfinetes de pérola espetados no feltro. Na blusa branca, bem no vértice do decote, o galho de cerejas.

Sentou-se na beirada da minha cama.

- Que susto você nos deu, querida - começou com sua voz pesada. - Pensei que fosse alguma doença grave. Agora está boazinha, não está?

Prendi a respiração para não sentir seu perfume.

- Estou.

- Ótimo! Não te beijo porque ainda não tive sarampo - disse ela calçando as luvas. Riu o risinho cascateante. - E tem graça eu pegar nesta altura doença de criança?

Cravei o olhar nas cerejas que se entrechocavam sonoras, rindo também entre os seios. Ela desprendeu-as rapidamente.

- Já vi que você gosta, pronto, uma lembrança minha.

- Mas ficam tão lindas aí - lamentou Madrinha. - Ela nem vai poder usar, bobagem, Olívia, leve suas cerejas!

- Comprarei outras.

Durante o dia seu perfume ainda pairou pelo quarto. Ao anoitecer, Dionísia abriu as janelas. E só ficou o perfume delicado da noite.

- Tão encantadora a Olívia - suspirou Madrinha sentando-se ao meu lado com sua cesta de costura. - Vou sentir falta dela, um encanto de criatura. O mesmo já não posso dizer daquele menino. Romeu também era assim mesmo, o filho saiu igual. E só às voltas com cavalos, montando em pêlo, feito índio. Eu quase tinha um enfarte quando via ele galopar.

Exatamente um ano depois ela repetiria, num outro tom, esse mesmo comentário ao receber a carta onde Romeu comunicava que Marcelo tinha morrido de uma queda de cavalo.

- Anjinho cego, que idéia! - prosseguiu ela desdobrando o crochê nos joelhos. - Já estou com saudades de Olívia, mas dele?

Sorriu alisando o crochê com as pontas dos dedos. Tinha encontrado os óculos.

Lygia Fagundes Telles

terça-feira, 1 de março de 2016

"Na casa defronte de mim e dos meus sonhos..." (Campos / Pessoa)

Fotografia de *L



Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,
Que felicidade há sempre!
Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi.
São felizes, porque não sou eu.
As crianças, que brincam às sacadas altas,
Vivem entre vasos de flores,
Sem dúvida, eternamente.
As vozes, que sobem do interior do doméstico,
Cantam sempre, sem dúvida.
Sim, devem cantar.
Quando há festa cá fora, há festa lá dentro.
Assim tem que ser onde tudo se ajusta —
O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza.
Que grande felicidade não ser eu!
Mas os outros não sentirão assim também?
Quais outros? Não há outros.
O que os outros sentem é uma casa com a janela fechada,
Ou, quando se abre,
É para as crianças brincarem na varanda de grades,
Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram.
Os outros nunca sentem.
Quem sente somos nós,
Sim, todos nós,
Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada.
Nada! Não sei...
Um nada que dói

Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa