POESÍA a rodos Textos em prosa em português (literários e não literarios) Vídeos com histórias

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Duas citações de Galileu



«Acredito que os filósofos voam como as águias e não como pássaros pretos. É bem verdade que as águias, por serem raras, oferecem poucas oportunidades de serem vistas e muito menos de serem ouvidas. E que os pássaros pretos, que voam em bandos, param em todos os cantos enchendo o céu de gritos e rumores, tirando o sossego do mundo».

Galileu Galilei  (1564-1642)



segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Uma vela para Dario (Dalton Trevisan)



UMA VELA PARA DARIO

Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo.

Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque.

Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca.

Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.

A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado á parede - não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espantá-las.

Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delicias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade; sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade.

Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes.

O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo — os bolsos vazios. Restava a aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio quando vivo - só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão.

A última boca repetiu — Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar. Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto.

Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair.

Dalton Trevisan


Texto extraído do livro Vinte Contos Menores, Editora Record – Rio de Janeiro, 1979, pág.20. Este texto faz parte dos 100 melhores contos brasileiros do século, seleção de Ítalo Moriconi para a Editora Objetiva.




quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Uma citação de Bergson



"O tempo é um dispositivo que impede que tudo aconteça de uma vez."


Henri Bergson (1859-1941), filósofo e diplomata francês



segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A Lady (Gomes Leal)

Gomes Leal, numa caricatura de Bordalo Pinheiro


A LADY

Aquela que me tem, agora, presa
Minha alma, meus sentidos, meus cuidados...
E me faz sonhar sonhos desmanchados,
É uma altiva e olímpica inglesa

Nunca tipo ideal de mais pureza
Vi nos góticos quadros mais prezados.
Seus doces olhos castos e velados
Têm um ar, infinito, de tristeza.

Tem uns gestos de deusa que caminha
Fonte grega, e um ar grande de Rainha,
E umas mãos como as ladies de Van Dyck...

Segue-a sempre um lacaio, e tristemente,
É por ela que eu morro, lentamente...
E ponho no bigode cosmétique.

Gomes Leal


António Gomes Leal (Lisboa, 1848 - 1921), poeta e crñitico literário português, na Wikipédia.


No Centro Virtual Camões:

 "(...) Gomes Leal é considerado um precursor do Modernismo Português, tendo sido referido por Fernando Pessoa como um dos seus mestres. Este dedica-lhe o soneto Gomes Leal, publicado pela Ática na edição das Obras Completas de Fernando Pessoa, em 1967 (...)"



sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Contra as 'italianas' - Para peritos em café



CONTRA AS ITALIANAS
[ou uma bica cheia, por favor]

Bica "curta"
Volume total - ± 25 cc
Conteúdo de cafeína 87,0 mg

Bica "normal"
Volume total - ± 35 cc
Conteúdo de cafeína 94,5 mg

Bica "cheia"
Volume total - ± 45 cc
Conteúdo de cafeína 98,1 mg


Podemos concluir que um café espresso (a vulgar "bica"), resulta da pressão a que a água atravessa as partículas de café moído e da consequente emulsão que essa pressão origina, das substâncias gordas do café - os óleos aromáticos e os colóides -, o que caracteriza e distingue esta bebida das restantes pela sua densidade, creme, corpo e sabor persistente na boca.

Reconhece-se um bom expresso pela cor e textura do creme à superfície, o qual deverá ser levemente acastanhado (cor avelã) e com ligeiras nuances mais escuras no centro e sem "bolhas". A sua espessura deverá ser de três a quatro mm e consegue-se analisar essa espessura se ao deitarmos açúcar na bebida, o creme consiga sustentar durante poucos segundos essa quantidade de açúcar, indo-se depositando no fundo da chávena de forma gradual.

Miguel Marujo



Lido no blogue Cibertúlia ("Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.")




segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A honra perdida de Sebastião (Ricardo França Jardim)




A HONRA PERDIDA DE SEBASTIÃO

Salazar não gostava de nós. Porque não se aprecia aquilo que não se conhece. E, nos seus 81 anos de vida, o velho conheceu apenas a pequena aldeia do Vimieiro, o seminário de Viseu, algumas ruelas de Coimbra e as paredes da sua reclusão, por detrás da assembleia amestrada. Nunca foi visto a subir o Chiado, descer a Rua do Ouro, sentar-se num café ou ohar o Tejo.

Salazar realmente não gostava de Portugal. E detestava particularmente os madeirenses. Não fosse ter privado em Coimbra com o futuro governador João Abel; com os eternos deputados manos Araújo; não fosse aquele general (ou cabo) da Calheta, José Vicente de Freitas, que o desencantou para o governo em 1928, Salazar julgar-nos-ia aborígenes africanos.

Brancos, sim, mas de alma negra, teria cogitado ao constatar o zero em comportamento dos ilhéus. Selvagens, em motins permanentes. Era a revolta da farinha em 31, as escaramuças do açúcar em 34, a revolução do leite em 36, embrião de um levantamento nacional contra a ditadura. Repressão difícil. Navios de guerra, forcas expedicionárias, oito mortos, centenas de presos e dezenas de deportados para África.

Salazar nao gostava dos madeirenses. Cobrou-nos, durante 30 anos, um imposto de guerra sobre todas as importações e exportações, E, suprema humilhação, mandou exarar nos códigos administrativos que, na Madeira, não podiam existir juntas de freguesia, por falta de civismo dos seus habitantes.

Reconheco a nossa ingratidão. Incapazes de perceber que, na sua infinita sabedoria, mesmo quando nos castigava, o velho só desejava o nosso bem. Quando instaurou o monopólio das farinhas; quando criou a Junta de Lacticínios (latrocínios, dizia o reviralho); quando concedeu o monopólio da cana sacarina a uma fábrica inglesa que laborava tres meses por ano. À forca de leis, castigos e multas, Salazar pretendia criar grupos financeiros e industriais. Determinou: toda a cana-de-açúcar seria vendida ao Hinton. Toda a produção da fábrica Hinton seria consumida localmente. Proibiu o açúcar importado - mais barato que o da Hinton. Proibiu a importação de bagacos e aguardentes continentais. Durante 30 anos andaram guardas fiscais a medir plantios de cana e revistar bagagens de quem desembarcava, à cata de alguma garrafita clandestina. Tudo para nosso bem. E nós sem percebermos.

Porém, onde há proibição, há tentação. Tipificada como crime. Foi a lei seca na América. Foi, salvo as devidas proporções, a casa do herói desta crónica. Permitam-me que o apresente: Sebastião, 50 anos, casado, pai de filhos. Comerciante na Calheta. Homem de haveres, a custa de uma venda com tasca anexa, aviando copos de jaqué, americano, ponchas e cirroses em barda. Esta é a versão oficial. Porque Sebastião adquiriu fama e proveito durante a guerra no negócio de linhas. Vivaço, calculou penúria. E açambarcou o impensável: carrinhos e novelos de linhas as toneladas. Quando apertou a guerra, navios ao fundo, corte nos abastecimentos, houve faltas. E digam-me: pode-se bordar sem linhas? Fazer calças? Remendar roupas? Sebastião, rico, estava nas sete quintas, a gozar quem o chamara maluco. Mas é possível um flibusteiro reformar-se? Afastar o cheiro da pólvora? A emoção do risco? Daí, acabada a guerra, lançar-se Sebastião no fabrico e venda do bagaço. Até ser apanhado. E multado em 50 contos, por posse e utilização indevida de alambique, um dinheirame na época. Sebastião das linhas bem pensou no seu padrinho José Vicente de Freitas, mas nesse ano de 53 já o cabo (ou sargento?) de guerra fazia tijolo. E é altura de introduzir o dr. Alexandrino. Causídico bem falante, estabelecido na Rua das Queimadas de Cima, desta cidade do Funchal. Que prometeu facilidades, estorno da multa e isenção nas custas.

Dito e acontecido. Com copiosa argumentação, baratinou os guardas autuantes, provando, se não a inocencia do multado, pelo menos a carência de provas. Poderia o alambique ter outro proprietário? Instalado em terras de Sebastião, é certo, mas sem conhecimento do dono?

Vencida a acção, continuou Sebastião chateado. Que gastara mais de 20 contos em preparos, retendo dr. Alexandrino a devolução da multa, à conta de honorários. "Processo difícil, sabe?" Aí, Sebastião desabafou. Mais valia não ter ido para tribunal. Sempre perdia menos 20 contitos. Foi a vez de Alexandrino trovejar. Cresceu, levantou a voz e indignou-se:

"Então rapaz, a tua honra? Acaso tem ela preço?"

E Sebastião afastou-se derrotado.

"Aquele gajo comeu-me as papas na cabeça ... Só por falar bem e conhecer leis (...) Filho meu há-de ir para Coimbra, estudar para Salazar ... "

E assim aconteceu. Sebastião já morreu. Resta-lhe uma sementeira de filhos e netos, todos doutores instalados em todos os partidos, para qualquer governo, em qualquer estação.

Ricardo França Jardim


(Público Magazine, Domingo, 14 Abril 1996)




quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

[de Stefan Zweig, a meio do Atlântico] (Ruy Ventura)



O poeta português Ruy Ventura lerá os seus versos na Aula de Poesía Enrique Díez Canedo, em Badajoz, no dia 3 de março. De manhã, na leitura para os alunos das escolas secundárias, será apresentado por duas das nossas alunas do "1º de Bachillerato".

Ficam aqui este poema e links.



[de Stefan Zweig, a meio do Atlântico]

a língua arde. queima
o coração, as veias, as células.
entre duas árvores, a corda
aperta a garganta. dissolve o anel e a saliva –
essa melodia
no interior do dragoeiro.

o incêndio alastra, sempre de negro.
sobe a escada, coloca sobre os olhos essa espada.
a língua arde. deixa entre as cinzas
vestígios de sombra. nada mais encontro
entre os escombros. antes da derrocada
levo para longe a última gota de sangue.
a saliva preenche o desespero,
o sopro do oceano.

fico deste lado, junto do medo.
tento salvar a última fronteira.
deixei este livro no sopé da montanha.
consigo ler. os símbolos
contudo têm pouca nitidez –
mesmo quando os entendo.

a língua arde. a flama acompanha-nos
neste forno. a chama desfaz
os ossos e o cabelo, o anel
e a melodia onde tento navegar.

de que vale cruzar o horizonte
quando a cinza guarda rebentos e palavras?
o incêndio alastra
deste lado do oceano. o sal lava o corpo
e a linguagem. o fogo devora a distância.
este fogo

encontra no coração
(na terra?)
essa ave nascida no início.



Para apreciar melhor o poema:



Stefan Zweig (Viena, 28 de novembro de 1881 — Petrópolis, 23 de fevereiro de 1942) foi um escritor, romancista, poeta, dramaturgo, jornalista e biógrafo austríaco de origem judaica. A partir da década de 1920 e até sua morte foi um dos escritores mais famosos e vendidos do mundo. Suicidou-se durante seu exílio no Brasil, deprimido com a expansão da barbárie nazista pela Europa, durante a Segunda Guerra Mundial.





Ruy Ventura na página de Antonio Miranda, de onde retiramos o poema de hoje.