POESÍA a rodos Textos em português (literários e não literarios) Vídeos com histórias

domingo, 30 de novembro de 2014

Liberdade (Fernando Pessoa)

Fernando Pessoa visto por nuvem



Fernando Pessoa morre em Lisboa no dia 30 de novembro de 1935.




LIBERDADE
(Falta uma citação de Séneca)

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa 








segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Pastelaria (Mário Cesariny)




PASTELARIA

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tantas maneiras de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:

Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria e, lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra.

Mário Cesariny



segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Porta-retrato (Caio Fernando Abreu)




PORTA-RETRATO

Tinha secado: esse era talvez o ponto. Não a palavra exata, que já não tinha essas pretensões, mas a mais próxima. Sabia pouco a respeito de árvores, ou sabia de um jeito não-científico, desses de tocar, cheirar e ver, mas imaginava que o processo interno de ressecamento começasse bem antes da morte aparecer no verde brilhante das folhas, na polpa dos frutos ou na casca do tronco. Não era evidente nem externo ou explícito o que padecia. E padecia? perguntava-se detalhando os traços com as pontas dos dedos, nada que revelasse na umidade da boca ou num contorno de nariz — uma dor? Não era assim. Gostaria de voltar atrás, com sentimentos curtos e claros feito frases sem orações intercaladas, iluminar aos poucos, um mineiro, uma lanterna, o poço fundo, uma linguagem? A unha batia contra o dente. Contatos assim: uma coisa definida chocando-se com outra definida também. E não só contatos, emoções, linguagens. Quase analfabeto de si mesmo, sem vocabulário suficiente para explicar-se sequer a um espelho. Não queria assim, esses turvos. Não queria assim, esses vagos. Sem nenhum humor. Sem nada que pulsasse mais forte que o frio cuidado com que desordenava-se, um gole disciplinado de vodca quando alguma corda do violino rebentava em plena sinfonia e, no meio do palco, impossível deter o acorde. Unicamente imagens assim lhe ocorriam, essa coisa das árvores, das gramáticas, das minas, dos concertos. Elegantemente, sempre. As luvas brancas, as longas pinças esterilizadas com que tocava sem tocar o todo, o tudo e o si. Um vício que lhe vinha quem sabe da mania de ouvir música erudita, mesmo enquanto apenas vivia, antes os fones nos ouvidos que os gritos na vizinhança. E por mais que afetasse um ar de quem lentamente cruza as pernas em público, puxando com cuidado as calças para que não amarrotassem, saberia sempre de sua própria farsa. Tão conscientemente falsa que sua inverdade era o que de mais real havia, e isso nem sequer era apenas um jogo de palavras. A grande mentira que ele era, era verdade. Ou: a mentira nele nunca fora fraude, mas essência. Seu segredo mais fundo e mais raso, daí quem sabe a surpresa branca de quando ouvira um quase-amigo dizer que não passava de uma personagem. Prometera-se sentimentos sem intercalados, mas sentia agora uma necessidade de explicar ao ninguém que superlotava sua constante platéia, com ele sempre fora assim: quase-amigos, nada de intimidades. Mas voltando atrás no ir adiante: uma surpresa quê. Não, não uma surpresa quê. Uma não-surpresa surpreendida, pois como e porque se fizera visível e dizível naquele momento o que nem sequer alguma vez escondera? Perdia-se, não eram teias. Nem labirintos. Fazia questão de esclarecer que sua maneira torcida não se tratava de estilo, mas uma profunda dificuldade de expressão. Por esse lado, quem sabe? As emoções e os pensamentos e as sensações e as memórias e tudo isso enfim que se contorce no mais de-dentro de uma pessoa — tinham ângulos? Havia lados mais como direi? Fragmentava-se: era os pedaços descosturados de uma colcha de retalhos. Pedia atenção aqui, por favor, mais por gestos, entonações ou simplesmente clima, e regirava: era os retalhos, um por um, não a colcha, ele. Desde o xadrez vermelho ao cetim roxo sem estampa, e assim por diante, todos. Quase parava de aborrecer-se então, como quem troca súbito uma peça para violino e cravo por um atabaque de candomblé. O leve tédio suspenso como poeira espanada logo voltava a desabar. O bocejo era a compreensão mais amarga que conseguia de si mesmo. E posto isso, cabia a seguir qualquer atitude desesperada como casar, tentar o suicídio, fazer psicoterapia ou um concurso para o Banco do Brasil. Localizava-se, mais fácil assim, dando nome às coisas. Um entusiasmo tênue como o gosto de uma alface. Isso, estar, ser. Uma vontade de interromper-se aqui, paladar estragado pelo excesso de cigarros tentando inutilmente dar um nome ao gosto que fugia entre os dentes. Em algum quarto, há muito não sabia de línguas no seu corpo, ou tão sabidas tinham se tornado que. Vacilava entre a certeza quase absoluta de estar alcançando qualquer coisa próxima de uma sabedoria inabalável, alta como um minarete, gelada como um iceberg — melhor assim: uma montanha de compreensão sem dor de todas as coisas. Ou, talvez o ponto, nem icebergs, nem minaretes — mas árvore. Inventava com os olhos no ar vazio à sua frente um verde copado de sumarentos frutos, como se diria num outro tempo, se é que alguma vez se disse, dizia sim, dizia agora, desavergonhado e frio. Verde copado de sumarentos frutos. Folhagem de seda lustrosa. Tronco pétreo ancestral. O seco invisível como verme instalado no de dentro. Impressentível, sob a casca, caminhando lento, questão de tempo, apenas, e semente contendo o galho crispado, mão de bruxa, roendo. Tinha dois olhos duros. Dois olhos grandes de quem vê muito, e não acha nada. Tinha secado, era certamente esse o ponto. Nunca a palavra exata, esclarecera de início. Já não tinha mais essas pretensões.


Caio Fernando Abreu


Caio Fernando Abreu (1948-1996) pode ser considerado um dos mais emblemáticos escritores brasileiros. As suas prosas, poesias e crônicas retrataram, ora com delicadeza ora com agressividade, as angústias e a identidade da geração dos anos 80.





segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Catão (Eugénio Lisboa)




CATÃO

A pátria é triste. Sofro. Estou calmo.
Único honesto, entre deshonestos, clarividente,
entre os cegos, a indignação há muito acalmo.
Estou só. Sofro quando alguém sente.
A honestidade – que solidão! A coragem cansa.
Em breve, cadáver que a outros mortos fala,
penso em Atenas, plena de alegria mansa,
e no coração afogo palavras que o pudor cala.
Estou cansado de prever o negro acontecer.
Algo nasce. Algo morre. Com quem perde, estou.
Honestidade é pátria de quem outra não sabe ter.
Ao abismo das causas perdidas, quieto, vou.
Melhor do que ocupar-me da minha pobre vida,
agora que os pássaros a cantar começam,
na espada pego, com mão há pouco ferida
– o vento rasgo. Percebo que meus pés tropeçam.

Eugénio Lisboa


Lourenço Marques, 7.2.75



Eugénio Lisboa (Moçambique, 1930) é um ensaísta e crítico literário português.



sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A caminho do Corvo (Vitorino Nemésio)

Ilha do Corvo (*)


A CAMINHO DO CORVO

À Maria Gabriela e ao Rodrigo,
primos filiais

A minha vida está velha
Mas eu sou novo até aos dentes.
Bendito seja o deus do encontro,
O mar que nos criou
Na sede da verdade,
A moça que o Canal tocou com seus fantasmas
E se deu de repente a mim como uma mãe,
Pois fica-se sabendo
Que da espuma do mar sai gente e amor também.
Bendita a Milha, o espaço ardente,
E a mão cerrada
Contra a vida esmagada.
Abençoemos o impossível
E que o silêncio bem ouvido
Seja por mim no amor de alguém.

25.7.1969

Vitorino Nemésio








Mais poemas dele no Citador.





segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Desemprego e emigração (António Correia de Campos)


Opinião

Desemprego e emigração

António Correia de Campos 

03/11/2014 - 02:55

Nos três anos de vigência do actual governo, entre emigrantes permanentes e temporários, saíram do País 350 mil portugueses, sempre em crescendo.


Saíram agora os números do desemprego e da emigração relativos a Setembro. O Governo canta vitórias. Em termos oficiais a taxa de desemprego baixou de 15,7 em Setembro de 2013 para 13,9 em Setembro deste ano. Continuamos no 5º pior lugar da Europa a 28, tendo apenas abaixo de nós o Chipre, a Croácia, a Espanha e a Grécia.

Pouco importaria que o desemprego fosse mais elevado, hoje, que quando o actual governo iniciou funções (12,5%), se estivéssemos a sair consistentemente da crise. Infelizmente tal não acontece e teremos que saber se o governo canta de júbilo ou se canta para seus males espantar.

Em relação a Setembro de 2013, tivemos menos 81 mil desempregados registados. Mas os “ocupados” em programas activos de emprego aumentaram de 115 mil há um ano, para 155 mil (+35%, neste ano e +495%, desde o início deste governo). Tais programas são por definição transitórios, levando o trabalhador a saltitar entre lugares desfocados vocacionalmente e induzem empregadores a deles abusar, evitando criar novos empregos. Estágios, acções de formação e outras medidas, multiplicados nestes três anos e meio de governo, dir-me-ão, foi melhor que o desemprego. Mas não deixa de ser uma cosmética que esconde a dura realidade.

Em pior situação se encontram os desencorajados ou desistentes, pessoas que apesar de desempregadas já não diligenciam procurar trabalho. Eram 256 mil no 2º trimestre deste ano, tendo aumentado em quase 110 mil desde o início deste governo. Ou seja, contamos um pouco mais de um milhão de cidadãos activos que não têm emprego, entre desempregados registados (616,6 mil), os “ocupados” em medidas activas de emprego (155 mil) e os desempregados já desiludidos ou desmotivados (256 mil, aproximadamente). Mas não é tudo. Falta contar os que saíram do País.

Nos três anos de vigência do actual governo, entre emigrantes permanentes e temporários, saíram do País 350 mil portugueses, sempre em crescendo: 101, 121 e 128 mil, respectivamente, em 2011, 2012 e 2013. Os 128 mil emigrantes registados em 2013 pouco nos dizem, se não os compararmos ao longo do tempo. Quando chegou o 25 de Abril, em 1973, emigravam 140 mil portugueses. Um ano após o 25 de Abril, com o fim da guerra colonial e o optimismo da mudança, o número de emigrantes caiu drasticamente para 40 mil, situando-se, por três décadas, sempre abaixo desse patamar, só voltando a mais de 100 mil em 2011.

Deste novo surto migratório, cerca de 42% são emigrantes permanentes e 58% são temporários. A distribuição por idades não engana quanto à saída dos trabalhadores em idade activa: 112 mil (88%) situavam-se entre os 20 e os 64 anos e 55 mil (49%), entre os 20 e os 49 anos. Concentremo-nos apenas nos emigrantes permanentes com idades entre os 20 e os 49 anos. Em três anos somam 110 mil activos. Cidadãos portugueses em idade activa que não encontrando emprego em Portugal, saíram para trabalhar no Estrangeiro.

Em resumo, mesmo descontando os “ocupados” em medidas activas de emprego, a perda de actividade sofrida pelos recursos humanos no País, devido a desemprego directo, desemprego desiludido e a emigração dos três últimos anos, em 2013 quase atinge o milhão de habitantes (983 mil).

Com a notável diferença de, antes do 25 de Abril, a emigração ser constituída por jovens adultos com escassa literacia e quase nula preparação profissional; enquanto agora estamos a atirar para fora das fronteiras, enfermeiros, médicos, engenheiros, arquitectos, gestores, técnicos de formação superior, excelentemente preparados, indispensáveis ao nosso processo de desenvolvimento.

Eis por que se exige paciência de santo, para ver e ouvir o Dr. Portas, o seu ministro do desemprego e o Dr. Passos Coelho cantarem louvores à sua excelente governação e afixarem cada décima destas contas complexas, como perdizes ao cinto. Só a eles próprios se conseguem iludir.

António Correia de Campos

Professor catedrático reformado


Publicado no diário Público



sábado, 1 de novembro de 2014

A menina de doze anos (Marcos Donizetti)



A menina de doze anos

Eu tinha uns 11 anos naquela época, e ela tinha 12. Talvez tenha sido a primeira menina que durante um bom tempo tomou todos os meus pensamentos. Ela era muito bonita, cabelos castanhos longos e lisos e um sorriso daqueles que só encontramos em crianças e em alguns raros adultos que souberam crescer sem deixar morrer a criança que eram.

A conheci porque naquele ano minha família frequentou bastante o local onde ela morava. Sempre passávamos perto dela e desde a primeira vez ela me chamou bastante atenção. Na verdade estou mentindo quando digo que a conheci, porque tudo o que fiz naquele ano e durante alguns anos depois foi olhar para ela de longe.

Passava horas a observando e pensando sobre quem eram seus amigos, do que ela gostava de brincar e que músicas ela gostava de ouvir. Ficava imaginando até como ela havia comemorado a vitória do Brasil na Copa do Mundo.

Boa parte das minhas brincadeiras consistia em inventar países, cidades, programas de TV, enfim, todo um universo no qual eu poderia ser um herói e não me sentir tão sozinho. Será que ela também se sentia solitária? Eu duvidava. Parecia animada e comunicativa demais para ser assim…

Mas eu não tinha como saber. Na verdade eu apenas a conhecia por foto. Uma foto bastante amarelada e maltratada pelo tempo. Já não lembro o nome dela, mas lembro das datas em sua lápide: 1958 - † 1970. Ela morrera pouco depois da Copa.

Foi um ano difícil para minha família. Um grande número de pessoas próximas morreu em 1987 e as idas àquele cemitério eram constantes. Com o tempo eu não sentia mais medo e até achava, como acho até hoje, um lugar bastante dava uma escapada para percorrer as áreas onde estavam os túmulos mais antigos. Gostava de imaginar quem era filho de quem, esposa de quem, como era a vida daquelas pessoas.

Sempre acabava passando mais tempo mesmo junto ao túmulo daquela menininha de 12 anos, que estava tão sorridente e feliz que nem parecia morta há tanto tempo. Eu achava que teríamos sido bons amigos, não fosse o fato de estarmos em mundos diferentes.


Originalmente publicado no Me, Myself And I, por Marcos Donizetti