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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

As gajas (Inês Pedrosa)

 A jornalista e escritora Inês Pedrosa



AS GAJAS

As gajas cresceram e multiplicaram-se. «Há cada vez mais gajas em toda a parte, já reparaste?», dizia um homem a outro homem, na intimidade do tremoço partilhado ao balcão da cervejaria. «Porra. Nem me digas nada. Até o meu chefe vai ser agora substituído por uma gaja», dizia o outro homem. As gajas são mulheres que vêm com uma deficiencia genética que lhes impede o acatamento do Modelo Cultural Feminino. Em crianças, preferem correr e andar de bicicleta a brincar aos tachinhos, desprezam bonecas e amam os animais; são as chamadas marias-rapazes. Na adolescência, preferem as calças as saias, por razões pragmáticas que nunca ocorreriam às mulheres-modelo, e, em vez de se limitarem à ginástica física indispensável ao encanto e elasticidade próprios de futuras mães, metem-se a concorrer com os rapazes em assuntos de ginástica mental, esquecendo que nada é tão feio como ver uma mulher pensar, com princípio, meio e fim, lógica e estratégia– escancaradamente, à homem. Ainda se pensassem em silencio - mas não; as gajas têm a mania de pensar alto e bom som. Em vez de se exibirem, como é próprio das mulheres, através da beleza e do paramento, rivalizam com os homens no espectáculo da mente. Querem afirmar-se, como se fossem homens, coitadinhas, sem perceberem que o feminino do adjectivo «afirmativo» é «agressiva». A mulher que é mulher deve ser doce, serena, compassiva, uma pomba de paz piando fininho em qualquer circunstância. As gajas, pelo contrário, têm a mania de bater com a mão na mesa e interrogar, recusando confundir a paz com conivências mansas, quase vegetais – por exemplo, com regimes que suprimem as mulheres.

Com a agravante de que algumas gajas acumulam: são lindas de morrer e espertas de fugir a sete pés. As feias ou gordas ainda pode a Ordem Masculina Dominante diminuí-las, propalando por jornais e revistas a denúncia das carnes, celulites, rugas ou verrugas vergonhosas, com uma veemência pro-porcional ao poder que elas tiverem. Mesmo que não as mate, esse ataque permanente às fragilidades físicas sempre acaba por moer – e gaja moída é gaja amolecida. Nesse aspecto, a Ordem conta com o labor dedicado da inveja das próprias gajas. O Gene Cultural Gaja guarda do Gene Cultural Mulher a memória da gloriosa inveja. De facto, por mais que o evitem, as gajas feias têm inveja das gajas bonitas. Nesse ponto, não conseguem deixar de ser contaminadas pela pressão contínua do Modelo Cultural Feminino, que grita (na televisão, nos cartazes, nas revistas) que mulher que não tiver ar de ter 20 anos e de viver do ar não é ninguém. Donde, as gajas que saem dos estritos limites da Norma Oficial facilmente ganham o hábito de fazer constar que as beldades são acéfalas. E caem que nem umas patinhas nos concursos de beleza contínuos que os homens inventam para elas.

Por exemplo quando uma gaja novinha chega a um escritório, basta soprar ao ouvido das outras jovens trabalhadoras que há uma mascote nova na praça para que todas se atirem a ela, esgadanhando-lhe o físico e o psíquico em dois tempos. Toda a gente sabe que as gajas são muito más umas para as outras – basta espicaçá-las. Para manter as gajas controladas, é preciso compará-las continuamente. Nem que seja perguntando-lhes, candidamente, se não são rivais. Reagem logo, o que é óptimo para manter a Ordem Vigente: enquanto as gajas se entretem (seja a puxar os cabelos umas as outras, a demarcar-se umas das outras, ou a debater, de mãos dadas, o feminino do feminino), os homens mandam, como sempre.

A Ordem Masculina Dominante, com a cumplicidade da Ordem do Mulherio Submetido de Bom Grado (constituída por raparigas tontas e giras que vivem - temporariamente, hélas, mas isso elas ainda não sabem - das discriminações positivas que todos os regimes discriminatórios comportam) têm procurado manter as gajas no lugar através de sanções sociais fortes– designadamente, afastando-as o mais possível dos lugares de poder, na política, ou penalizando-as com toda a espécie de insultos pessoais, nos raros casos em que a eles acedem (vide o tratamento e os epítetos dados a Manuela Ferreira Leite). Um político pode ter quatro duplos queixos, três barrigas de cerveja e olhos de sapo que ninguém o desconsiderará por isso. Mas tratando-se de uma mulher política, nenhum pormenor físico deixará de ser aduzido e sublinhado para que se perceba que aquele ser não é para levar a sério.

As gajas perderam aqueles tocantes dons femininos de resignaçao e subtileza que lhes permitiam, no tempo em que se tornavam simplesmente mulheres, apreender todos os cambiantes da complexa mente masculina.

Às gajas custa-lhes a entender, por exemplo, o pensamento filosófico profundo de um Gonçalo da Câmara Pereira, que, confessando-se «marialva» há dias, na RTP, explicava: «o marialva não bate na mulher e o machista bate». Às gajas, em compensação, ninguém bate. Podem esfolar-se a trabalhar, mas nunca serão vítimas. Não, as gajas não fazem chantagem sentimental. Podem chorar de desilusão noites a fio, mas homem nenhum as ouvirá dizer que se atiram da janela se eles as deixarem - é isso que as torna tão irritantes. Ou fascinantes – para os poucos que já vao sendo capazes de entrar no admirável mundo novo delas.

Inês Pedrosa

(8.3.2003)