POESÍA a rodos Textos em português (literários e não literarios) Vídeos com histórias

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Lavoura arcaica (Raduan Nassar)



O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; é um pomo exótico que não pode ser repartido, podendo entretanto prover igualmente a todo mundo; onipresente, o tempo está em tudo; existe tempo, por exemplo, nessa mesa antiga: existiu primeiro uma terra propícia, existiu depois uma árvore secular feita de anos sossegados, e existiu finalmente uma prancha nodosa e dura trabalhada pelas mãos de um artesão dia após dia; existe tempo nas cadeiras onde nos sentamos, nos outros móveis da família, nas paredes da nossa casa, na água que bebemos, na terra que fecunda, na semente que germina, nos frutos que colhemos, no pão em cima da mesa, na massa fértil dos nossos corpos, na luz que nos ilumina, nas coisas que nos passam pela cabeça, no pó que dissemina, assim como em tudo que nos rodeia; rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas, e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terras largas; rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é; por isso ninguém em nossa casa a de dar o passo mais largo que a perna: dar o passo mais largo que a perna é o mesmo que suprimir o tempo necessário à nossa iniciativa; (...)

Raduan Nassar

Trecho do seu livro Lavoura arcaica (1975)


Raduan Nassar (1935) é considerado, apesar da brevidade da sua obra, um dos melhores escritores brasileiros. Nesta página de Releituras há dados biográficos e bibliográficos sobre o autor.



segunda-feira, 21 de maio de 2012

Momento num café (Ruy Cinatti)

Fotografia de Lady Lay


MOMENTO NUM CAFÉ

As mãos lindas que vi deixam-me absorto:
compridos dedos, polegares de espátula,
um dedilhar de flores em jardins ociosos,
só comparável a conversa amena
de duas mulheres simples debruçadas
sobre o tampo liso de uma mesa.

A riqueza da vida reside nisto:
um leve toque no ombro do próximo…
uma cortina de chuva vedando a verdade,
olhos indiferentes, indiscretos…
e um ar de encanto, um fácil soluço
ouvido longe, como que em segredo.

Ruy Cinatti

segunda-feira, 14 de maio de 2012

romance de supermercado (Marta Lança)



romance de supermercado

Foi no corredor dos detergentes – que cruza o dos laticínios e separa o das bebidas do dos pensos higiénicos – onde se viram pela primeira vez. A loura redondinha e o mestiço de bigode ralo. Um tão inesperado encontro mudaria as vidas destes solitários que passeavam no hipermercado lançando um ar indignado com os preços para simular o engate: quando Elisabete deixa cair o skip e Lauro escorrega no perfumado pó branco. Este acidente fá-lo torcer um pé às mãos dela, e ela, a excêntrica loura com ares de actriz de série z, encosta o redondo peito à cara do acidentado.

Olhos mesquinhamente curiosos rodeiam os apaixonados, enquanto os próprios, estendidos no chão, o mesmo chão onde um patinador desmaiou de cansaço, se acarinham loucamente e fazem chover propostas: casa, na sua ou na minha, curo-lhe o pé com uma ligadura, faço-lhe o jantar, venha, venha.

Lauro levanta-se e pede uma mão, Eli repõe as batatas fritas light na prateleira errada e agarra-o com força, como se esperasse há muito por este homem. Depois avançam contentes e coxos por entre os congelados, saem altivos pela caixa das 15 unidades e nem ligam aos alarmes que tocam frenéticos assinalando o bonito romance.

Marta Lança, no seu blogue A vida escrita



segunda-feira, 7 de maio de 2012

Giro? Legal?



Ontem, à conversa com uma amiga de um amigo, acabada de chegar do Brasil, me apercebo da importância da palavra «giro» no meu vocábulário. O mais engraçado é que sempre sobrevivi sem ela e agora entro em pânico quando tento fazer uma tradução às pressas para português brasileiro. Não é «legal» nem «bonito» ou «interessante». É tudo isso e mais alguma coisa. Acho que tem praí uns duzentos significados. Eu posso tanto dizer que uma garota é «gira» querendo dizer «bonita» como dizer que Lisboa é «gira» querendo dizer «legal» ou «interessante». Entendeu meu drama?

Wellington Almeida

terça-feira, 1 de maio de 2012

Caranguejola (Mário de Sá-Carneiro)

 Caricatura de Mário de Sá-Carneiro
por Almada Negreiros


CARANGUEJOLA

- Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira -
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais - não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com este enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar...

Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
- Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom edrédon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co'a breca! Levem-me prà enfermaria! -
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará.

Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível - por causa da legenda...
Daqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda -
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora, no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras:
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

Mário de Sá-Carneiro

Paris - novembro 1915