POESÍA a rodos Textos em português (literários e não literarios) Vídeos com histórias

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A paixão (Almeida Faria)



De madrugada ainda levantar-se, descer para a cozinha e enregar o trabalho reacendendo lume no fogão, lavar a louça que ficou da véspera, com sobejos de comida, em monte sobre a pia (durante o inverno a água gela, corta os osso da gente, faz doer às vezes até pelo braço acima – deve ser reumático – mesmo ao cotovelo) e só depois sair para o quintal em que os pardais já cantam sobre o carrapateiro, filhar da vassoura e, com ela, varrer a capoeira e aos bichos dar farelos e mais reção avondo (de manhã as capoeiras têm sempre um certo cheiro azedo como alguns quartos de homem) e também ao pintassilgo mudar a água para beber, pôr a tina do banho, dar-lhe ou alpista ou uma folha de alface ou atão ambas, retirar o papel que, ao fundo da gaiola, se enche de cagadelas dia a dia e de casca de alpista, voltar depois ao quarto, lá em cima, a fim de pentear-se, pintar-se se ele a espera, pôr arrelicas e se aparelhar do casaco comprido, cinzento e desbotado, meter a carteira na algibeira, descer de novo a escada em caracol para a cozinha

Almeida Faria


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

"O rio que fazia uma volta..." (Manoel de Barros)



O primeiro poema lido pelo autor, Manoel de Barros, é este em baixo. Depois, há mais...

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole que fazia uma
volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

Manoel de Barros


Fotografia de Goga



segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Sobre 'doutores e engenheiros'

Desenho de Luís Afonso (cliquem para ler o texto)

Maria das Dores Maia é uma portuguesa que escreveu à revista Visão em 2004 sobre esse assunto de que vocês já ouviram falar muitas vezes: em Portugal, as pessoas com estudos universitários, são tratadas como doutores, engenheiros, etc.

Será que todos os portugueses gostam disso ou concordam com essa maneira de tratar as pessoas? Não, é claro.


Doutores e engenheiros

Há em Portugal uma tendência provinciana que faz com que certas pessoas se sintam bem ao serem tratadas por «senhor doutor», «senhor arquitecto» ou «senhor engenheiro». O tratamento em função da licenciatura não tem pés nem cabeça, porque fica abolido o nome da pessoa (que é, no meu entender, o mais importante), restando apenas o impessoal título professional adquirido pela conclusão de um curso universitário de quatro ou cinco anos. Quando perguntamos o nome a um vendedor, uma empregada da limpeza, a um serralheiro, a um trolha, a um carpinteiro, a um escriturário ou a um pasteleiro, eles não respondem: «Sou o serralheiro Fulano de Tal» ou «Sou o pasteleiro Sicrano».

O que valoriza um ser humano são as suas qualidades morais (que estão hoje em dia em completo decréscimo) e a sua honestidade e simplicidade. Nada mais. 


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A rua é das crianças (Ruy Belo)

Fotografia de Ricardo Jorge Fidalgo

A RUA É DAS CRIANÇAS

Ninguém sabe andar na rua como as crianças. Para elas é sempre uma novidade, é uma constante festa transpor umbrais. Sair à rua é para elas muito mais do que sair à rua. Vão com o vento. Não vão a nenhum sítio determinado, não se defendem dos olhares das outras pessoas e nem sequer, em dias escuros, a tempestade se reduz, como para a gente crescida, a um obstáculo que se opõe ao guarda-chuva. Abrem-se à aragem. Não projetam sobre as pedras, sobre as árvores, sobre as outras pessoas que passam, cuidados que não têm. Vão com a mãe à loja, mas apesar disso vão sempre muito mais longe. E nem sequer sabem que são a alegria de quem as vê passar e desaparecer.


Ruy Belo

Do seu livro Homem de Palavra(s) (1970)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Sarita (António Mendes Cardoso)

Fotografia de José Carlos Costa

SARITA

Sarita mora no musseque,
sofre no musseque,
mas passeia garrida na baixa
toda vermelha e azul,
toda sorriso branco de marfim,
e os brancos ficam a olhar,
perdidos no seu olhar.
Sarita usa brincos amarelos de lata
penteado de deusa egípcia
andar de gazela no mato,
desce à cidade
e sorri para toda a gente.
Depois, às seis e meia,
Sarita vai viver pró musseque
com os brancos perdidos no seu olhar!

António Mendes Cardoso

in Poemas de Circunstância, 1961

Escritor angolano, António Mendes Cardoso nasceu a 8 de Abril de 1933, em Angola, e faleceu em 2006.

Nota. Para saber da palavra musseque, é favor clicar.



quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O banqueiro anarquista (Fernando Pessoa)



Ele tirou da boca o charuto, que se apagara; reacendeu-o lentamente; fitou o fósforo que se extinguia; depô-lo ao de leve no cinzeiro; depois, erguendo a cabeça, um momento abaixada, disse: —Oiça. Eu nasci do povo e na classe operária da cidade. De bom não herdei, como pode imaginar, nem a condição, nem as circunstâncias. Apenas me aconteceu ter uma inteligencia naturalmente lúcida e uma vontade um tanto ou quanto forte. Mas esses eram dons naturais, que o meu baixo nascimento me não podia tirar. 

Fui operário, trabalhei, vivi uma vida apertada; fui, em resumo,o que a maioria da gente é naquele meio. Não digo que absolutamente passasse fome, mas andei lá perto. De resto, podia te-la passado, que isso não alterava nada do que se seguiu, ou do que lhe vou expor, nem do que foi a minha vida, nem do que ela é agora.

Fui um operário vulgar, em suma; como todos, trabalhava porque tinha que trabalhar, e trabalhava o menos possível. O que eu era, era inteligente. Sempre que podia, lia coisas, discutia coisas, e, como não era tolo, nasceu-me uma grande insatisfação e uma grande revolta contra o meu destino e contra as condições sociais que o faziam assim. Já lhe disse que, em boa verdade, o meu destino podia ter sido pior do que era; mas naquela altura parecia-me a mim que eu era um ente a quem a Sorte tinha feito todas as injustiças juntas, e que se tinha servido das convenções sociais para mas fazer. Isto era aí pelos meus vinte anos —vinte e um o máximo— que foi quando me tornei anarquista.

Parou um momento. Voltou-se um pouco mais para mim. Continuou, inclinando-se mais um pouco. 

—Fui sempre mais ou menos lúcido. Senti-me revoltado. Quis perceber a minha revolta. Tornei-me anarquista consciente e convicto —o anarquista consciente e convicto que hoje sou.

Fernando Pessoa

Excerto de O banqueiro anarquista, obra publicada pela primeira vez na revista Contemporânea a 1 de maio de 1922.



segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Memória (Carlos Drummond de Andrade)

Praça da Estação (Fotografia de João Perdigão)

MEMÓRIA

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade


Do seu livro Claro Enigma (1951)




Eis o poema na voz do próprio Drummond